domingo, 30 de maio de 2010

Bodhidharma2

"Ao longo da roda sem fim dos nascimentos e
renascimentos.
Em busca vã. empenhei-me em encontrar
Quem concebera o edifício.
Que miséria! Nascer, sem cessar!
Ó construtor, eis que vos descobri!
Esta obra, não a reconstruireis jamais!
Todas as vigas estão destroçadas,
O teto pontiagudo jaz por terra!
Este espírito logrou a dissolução
E assistiu à cessação do desejo!"


Mil anos separam o canto vitorioso do Buda, após obter a iluminação, da chegada de Bodhidharma, o propagador do Zen, à China.

E, contudo, a mesma procura, a mesma exigência os une: logo outros cantos de vitória seriam ouvidos em terra chinesa.

Os adeptos do Zen sempre desejaram estabelecer uma filiação espiritual de mestre a discípulo desde Gautama até Bodhidharma, o último patriarca indiano. Mas é preciso levar em conta que essa genealogia tardia não encontra respaldo algum nos documentos históricos. Devemos, pois, considerá-la com precaução.

Segundo os textos, o Zen foi diretamente transmitido pelo Buda a seu discípulo Mahakashyapa durante uma reunião da congregação.

Gautama apresentara uma flor á assembléia sem dizer uma palavra. Somente Mahakashyapa compreendera a alusão, respondendo com um sorriso...

A anedota, verdadeira ou apócrifa, tem o mérito de traduzir com exatidão o espírito não-verbal do Tch'an tal como Bodhidharma o propagou.

Os "genealogistas" do budismo nomeiam vinte e sete patriarcas indianos, que se sucederam sem interrupção até Bodhidharma. Este último, filho de um brâmane convertido ao budismo, foi enviado pelo imperador Wu á corte de Nanquim.

O relato dessa entrevista tornou-se lendário. Tem já o sabor, o tom lapidar, o estilo e a jovialidade que farão a glória dos mestres do Tch'an.

O imperador, budista fervoroso, tentou alardear aos olhos do missionário a soma dos méritos que acumulara em anos de serviço à religião: subvenções aos monastérios, cópias de escrituras, edificação de templos e santuários.
Asperamente, Bodhidharma retrucou que não via nisso motivo algum de glória, tais "méritos" estavam totalmente destituídos de valor!
Aturdido, o imperador cobrou explicações.
- Isso tudo não representa mais que atos insignificantes dos homens. Quanto aos deuses, são apenas uma fonte fugidia de recompensas que os segue como a sombra segue o corpo. Ora, a sombra não existe, embora o pareça.
- Qual é, pois, o verdadeiro mérito?
- Ele consiste na compreensão da sabedoria pura, cuja substância é o silêncio e o vazio. Mas não se pode aspirar a esse mérito como o mundo o faz.
Cada vez mais confuso, o imperador ainda replicou:
- Qual é o primeiro princípio da doutrina sagrada?
A resposta veio como uma bala de canhão:
- Um vazio insondável e nada de sagrado!
Sem argumentos, o monarca tentou pela última vez confundir o sábio:
- O que é que está diante de mim?
- Não sei.

Bodhidharma pediu permissão e deixou o imperador. Diz a lenda que enfurnou-se por sete anos numa grota, mantendo-se assentado diante de uma parede- Antes de morrer, transmitiu o conhecimento a seu primeiro discípulo.

Essa história, qualquer que seja sua veracidade original, exprime perfeitamente a via negativa ou apofática que não tardaria a constituir a essência da prática zen-budista.

Ao imperador ávido por estadear seus méritos e ocupar-se das coisas sagradas, Bodhidharma replica que semelhante concepção religiosa é absurda, votada à confusão. Enquanto insistimos em perpetuar algo como o 'mérito", alimentamos a crença de que somos um ser distinto, autônomo.

Finalmente, ao ser solicitado a definir sua natureza, Bodhidharma esquiva-se à pergunta e finge nada saber.

Tal é a "parede" do Tch'an: um vazio impenetrável, nem sagrado, nem profano.

O Zen recusa-se à instigação equivoca da teorização e da abstração.

Bodhidharma enunciou quatro princípios essenciais ao conjunto do "pensamento" zen ulterior. Esses princípios tornaram os adeptos imunes ao pietismo e à fé cega.

- Transmitir sem levar em conta as escrituras.
- Não depender de palavras ou textos.
- Avançar diretamente rumo ao espírito do homem.
- Contemplar sua própria natureza e alcançar a condição de buda.


Evitando fundamentar-se em textos, o Tch'an afasta as tentações fetichistas e escolásticas comuns às religiões. Quantos fiéis não se perderam no estudo e na exegese, esquecendo sua natureza inerente e deixando-se embair pelo encantamento místico ou pela razão discursiva!O que importa é o espírito do homem aqui e agora, sem a proteção ilusória de escrituras sagradas.Alertada pela presença de um sábio, a pseudopersonalidade deseja exibir méritos conseguidos com prática vaidosa. Mas os mestres do Tch'an sabem sempre encontrar a brecha na couraça e apontar a verdade...O espírito Tch'an não se reveste de discursos, mas como uma ave de rapina ataca a presa oferecida pelo questionador desatento, imbuído de sua personalidade mesquinha.

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