
Com Bodai Daruma ou Bodhidharma, o monge barbudo que veio da Índia, começa a “história oficial” do Ch’an (Zen) na China, por volta do ano 500.
Tal como Siddatta Gotama, Bodhidharma pertencia, por nascimento, a uma casta de guerreiros, o que quer dizer que provavelmente teria sido instruido nas antigas artes de combate indianas agrupadas sob a designação de Dhanurveda, também ligadas ao sistema Ayurveda de medicina tradicional, elementos esses hoje sintetizados no Kalarippayat.
É sabido que tanto Buddha como Bodhidharma praticaram também formas de yoga antigo, anterior ao yoga actual sistematizado porPatañjali.
Deiryu, famoso monge zen do seculo XX, mestre de caligrafia, da cerimonia do chá e de Kyudo, inspirou-se neste barbudo monge para pintar o boneco Daruma, que volta à posição de pé uma e outra vez quando alguém o tente derrubar, para que se perceba a subtil mensagem: não importa quantas vezes vais ao solo, o importante é estar de pé.
Quando chega à China vindo da Índia Bodai Daruma (o Iluminado) tem uma entrevista com o Imperador reinante à época, ao que consta um fervoroso amante, e benfeitor, do budismo.
O diálogo entre ambos é uma das perolas do zen.
O imperador Wou dos Leang perguntou a Bodhidharma:
Desde o inicio do meu reinado, construi tantos templos, copiei tantos textos sagrados, auxiliei tantos monges; na vossa opinião, qual é o meu merito?
-Nenhum mérito!
-E porquê?
-São apenas acções inferiores que permitirão ao seu autor renascer nos céus ou sobre a terra. Elas trazem ainda a marca do mundo e são como sombras que seguem os objectos. Uma acçõa verdadeiramente meritória está repleta de pura sabedoria, perfeita e misteriosa, a sua natureza real está para além do alcance da inteligência humana,
-Então, qual é o primeiro principio da Santa Doutrina?
-Nada pode ser qualificado de santo no principio que é, por definição, vasto e vazio.
-Quem é então aquele que tenho diante mim?
-Ignoro-o.
Passado isto, talvez por prudência, Bodhidharma retira-se para norte e, ao que parece, ao chegar ao templo de Shaolin depara-se com um conjunto de monges enfraquecidos pela ausencia de exercicios fisicos, por práticas ascéticas e por infindáveis discussões doutrinais. Bodhidharma introduz assim um conjunto de movimentos procedentes de antigos sistemas de combate da Índia e técnicas de respiração e posturas do antigo yoga, aperfeiçoados e trabalhados por ele próprio ao longo das suas extensas e prigosas viagens, a par, evidentemente, da meditação na postura sentada: o zazen.
Era prática corrente entre os monges errantes da época, que obviamente viajavam desarmados, e por isso sujeitos a assaltos frequentes, a troca de exercicios sob a forma de movimentos, de golpes, de truques, da mesma forma que intercambiavam segredos de plantas , massagens e formas de curar.
É provavel que tenha sido assim, atravez dos monges errantes, que o sistema legado por Bodhidharma ao Shaolin, com o nome de I Chin Ching passou da China ao Japão e partindo de Okinawa chega, sob formas diversas e sistematizações modernas, a todo o mundo, como as chamadas Artes Marciais.
Não se sabe como acabou os seus dias este enigmático monge, sabe-se sim o primeiro diálogo que teve com o seu discipulo Houei-k’o, aquele que viria a ser o seu sucessor no dharma.
“O ensinamento de todos os budas não deve ser procurado através de um outro.
-O meu espirito ainda não está pacificado. Peço-vos, Mestre, purificai-o.
-Traz-mo que eu pacificá-lo-ei.
-Procurei-o durante anos, mas ainda sou incapazz de o agarrar.
-Pois bem, ei-lo pacificado de uma vez por todas.”
Hakuin, monge zen e poeta, importante renovador da escola Rinzai no seculo XVIII, é dele o conhecido koan, em que batendo as palmas pergunta – qual é o ruído que faz o bater de uma só mão? escreveu o seguinte poema:
“Na India é o grande mestre Bodhidharma.
No Japão, um brinquedo de balanço.
Lá, ele esmaga as seis escolas fora da Via.
Aqui, entretém trinta mil garotos.”
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